Diário de uma Foca: Viagem a Baía da Traição
Uma história que começa na Baía da Traição do século dezesseis. Rituais com narrativas seculares para contar. Repetidas ao longo dos anos, passadas de geração em geração. Única reserva indígena oficialmente reconhecida da Paraíba, os Potiguaras ainda conservam sua identidade.
O Toré até hoje resgata um pouco das raízes, em verso ou em prosa, em português ou no idioma oficial, o tupi-guarani. A dança é encenada desde os tempos primitivos. Os índios com vestimentas e instrumentos típicos hipnotizam os espectadores.

A população indígena Potiguar hoje é de cerca de 14 mil habitantes, espalhados em 26 aldeias e nas áreas urbanas de Baía da Traição, Rio Tinto e Marcação. Uma das maiores fontes de renda dos Potiguaras é o artesanato. A arte é produzida a partir da palha, ossos, sementes e coco. Colares, pulseiras, brincos e a indumentária indígena atraem turistas que vem até da Europa apreciar o trabalho.

Os visitantes também vêm em busca das belas paisagens que ficam em território potiguar. Não é qualquer que tem do quintal uma visão como essa. E que dá acesso a espetacular Praia de Tambá. Foi do alto dessas falésias em meados de 1500, onde os índios assistiram a invasão dos europeus, que vieram buscar as riquezas da terra habitada pelos indígenas. Até hoje as tribos reverenciam um guerreiro conhecido como Pedro Poti, que dedicou grande parte da vida a ser o guardião da aldeia Potiguar.
No princípio o lugar era chamado de Acajutibiró, que em tupi significa “sítio de caju”. O surgimento do nome Baía da Traição é cercado de controvérsias. Mas a versão mais aceita pelos historiadores é a de que o nome Traição se refira a primeira expedição em 1501 comandada pelo famoso Américo Vespúcio – quando três marinheiros portugueses teriam sido mortos e devorados pelos nativos.
Estar nesse lugar de areias brancas, vento forte e mar traiçoeiro é uma viajem na imaginação, noutro tempo… Onde se pode brincar de inventar gente que não existe mais, que sonhou, lutou, viveu e morreu aqui. Na região onde a história se trai, certeiro mesmo é só o horizonte, lá longe, onde das falésias é quase possível ver a chegada das caravelas descendo o Oceano Atlântico.

Pandemias são eventos globais que produzem ótimas histórias locais
Al Thompkins postou interessante levantamento de informações e idéias para cobrir o surto de Gripe Suína que pode se tornar uma pandemia.
Dentre os temas, sugestões de como fazer cobertura local do evento:
As dicas são do Nieman Report (Fundação da Havard):
“Realmente acho que uma reportagem sobre pandemia é local, local, local. O fato é, o que as pessoas pensam sobre pandemia, se eles estão se preparando, como eles estão se preparando, o que nos realmente queremos dizer as pessoas é o que está acontecendo na escola municipal, no distrito de polícia da vizinhança, no shopping mall. É onde está o drama real, a real narrativa, para aqueles que querem fazer narrativa.
Alguns exemplos:
- Se as pessoas irão trabalhar se sentindo doentes porque ganham por dia trabalhado e não podem se sustentar ficando em casa é uma história local. É uma história que você apura localmente para provar e personalizar.
- Se as pessoas vão insistir em procurar o hospital local, mesmo que as autoridades digam para não fazê-lo, porque eles têm um membro da família doente e pretendem enfrentar a polícia e o exército para conseguir atendimento para o familiar.
- Se as pessoas vão continuar com a vida normal mesmo que comece uma pandemia, porque são analfabetos e não sabem ler as mensagens do departamento de saúde pública local.
“As histórias na lista são situações que podem se tornar reportagens locais, específicas e diferentes em cada área, se ou quando uma pandemia começar. Também acho que há historias que podemos produzir agora sobre a preparação para uma pandemia que também são muito locais, específicas e diferentes em cada lugar.”
A sugestão é se ocupar para cobrir uma história respondendo questões fundamentais: “Para muitos cientistas e médicos, as perguntas essenciais que fazemos são: ‘Como você sabe isto? Quais sãs as evidências? ‘ Mas eu acho que há outra questão que devemos manter em mente: ‘Como isto funciona?’ Esta é a questão que irá te levar para o local, para cada detalhe granular do material que precisa escrever.
Alguns exemplos:
- Com que freqüência os centros de medicina especializada do hospital de sua cidade recebem entregas de suprimentos médicos e farmacológicos? 3 vezes por dia? Uma vez por dia? Eles tem reserva para 3 dias? Para 5 dias? Isto é algo que é necessário saber para escrever sobre as preparações dos hospitais.
- Se você tem grandes indústrias na sua cidade, de onde vêm os materiais crus que eles usam?
- A que distância fica os fornecedores que abastecem os supermercados locais? Quanto de mercadoria eles tem de reserva? Elas vêm direto do porto em seus caminhões refrigerados para o supermercado?”
Post relacionado: No ar – Cobertura da Gripe Suína.
No Ar: farra passagens, JN 40 anos e edital Ministério das Comunicações
Deputados defendem uso da TV para responder a noticiário sobre farra das passagens
De olho na repercussão negativa que tomaram as denúncias envolvendo abuso de parlamentares nos gastos de dinheiro público com passagens aéreas e uso de telefones celulares corporativos, deputados federais defendem uma reação rápida da Câmara, de preferência uma resposta em cadeia nacional em TV. O presidente da Casa, Michel Temer (PMDB-SP), será o responsável por defender os deputados.
“A cobertura é desleal”, disse o deputado Cândido Vaccarezza, líder do PT. Ele e outros líderes partidários se queixam do que chamam de generalização das denúncias pela imprensa. Vaccarezza diz que para a mídia todos participaram da farra das passagens. “As regras vigoravam havia 49 anos. Quem está corrigindo, graças à pressão popular, somos nós”, defende.
As informações são do Estado de S. Paulo.
JN 40 anos: as 122 afiliadas da Rede Globo
O Jornal Nacional vai completar, no dia 1º de setembro, 40 anos e está homenageando até lá as emissoras afiliadas: “Uma história como esta só se constrói com parcerias sólidas e o Jornal Nacional é isso: o resultado do trabalho de milhares de pessoas no Brasil inteiro, entre jornalistas e técnicos”.
Ministério das Comunicações vai abrir edital de licitação para emissoras de rádio e TV
Uma portaria publicada no Diário Oficial de 27/04 dá início à abertura de editais e licitações do Ministério das Comunicações para 64 emissoras de radiodifusão, 55 delas para rádios em frequência modulada e nove para TV. Em no máximo 60 dias, o ministério enviará ao Tribunal de Contas da União (TCU) os estudos de viabilidade econômica, de acordo com as exigências da Instrução Normativa (nº 27/98) e do Acórdão (nº 2266/2008).
Só com a aprovação do TCU é que o ministério poderá abrir edital para as licitações. As características técnicas e os planos básicos de cada serviço de radiodifusão foram analisados quando o ministério selecionou as empresas.
Dezoito estados foram contemplados no que diz respeito às emissoras de rádio. São eles: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo.
Já entre as emissoras de TVs, foram contemplados Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Paraná, Rio Grande do Norte, Sergipe e São Paulo.
Cobertura Especial: Gripe Suína no Ar
O volume de atenção da mídia a Gripe Suína sugere um momento de tensão nas redações: este é um dos acontecimentos que ocupa praticamente 100% da programação jornalística. É notícia que envolve toda a sociedade e merece a atenção dos jornalistas. Mas é preciso tomar cuidado com exageros (sensacionalistas) que podem acabar criando pânico na audiência. A associação de diretores de Rádio e Televisão dos Estados Unidos (RTNDA) publicou um especial com dicas para a cobertura de Surtos como a Gripe Suína – se o surto deixa o mundo de pernas para o ar, imagina o que pode fazer com as redações.
Desenvolva um plano – Sua redação tem alguma idéia do que é essa doença perigosa? Você já planejou como irá cobrir uma possível pandemia de tal forma que seja útil para o público, mas minimize o risco para a equipe?
É preciso ter em mente que talvez seja preciso modificar e estender horários de trabalho da equipe, aumentar o tempo da programação, colocar flashs e até entrar no ar sem comerciais.
Prepare sua redação
Muitas redações modernas já encararam o desafio de noticiar durante crises – como em ataques terroristas, furacões e tornados – mas é preciso pensar que cobrir uma pandemia de gripe é bem diferente. É necessário considerar que teoricamente um vírus possa sobreviver a teclados, telefones e outros equipamentos da redação por horas após o contato com uma pessoa infectada. Considerando que a cobertura pode expor repórteres e cinegrafistas a um vírus que pode ser mortal. Cientistas dizem que não podem identificar grupos de risco para infecção severa e fatal, mas acreditam que crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão expostas a um risco maior. Mas ter uma equipe jovem e saudável não torna a redação imune. Por isso é preciso pensar primeiro na segurança da equipe e ter precaução. Muitos casos de possíveis pessoas infectadas estão se espalhando até aqui no Brasil, então a doença pode estar mais próxima do que se imagina.
Cubra a História
- Usando a equipe saudável que tiver disponível, reserve energia para acompanhar o delicado balanço entre causar pânico e subestimar a seriedade de uma pandemia. Jornalistas podem ajudar a salvar vidas e suavizar os efeitos da doença.
- Redações devem levantar a relação de hospitais e agências de gerenciamento de emergência e indagar quais sãos os planos para enfrentar a crise.
- Um dos primeiros passos é levantar a relação de médicos e representantes de outras fontes e organizar um plano de trabalho antes que os mesmo estejam agendados com outros veículos ou atarefados com as necessidades da população.
- Negocie que a liberação de boletins e releases coincida com a hora do telejornal.
- Tenha os contatos primários e secundários das autoridades envolvidas no combate ao vírus: telefones do trabalho, do celular e até de casa.
- Convença as autoridades de que sua emissora pode ajudar a reduzir a carga de trabalho deles a partir do suprimento de muitas informações necessárias.
- É importante checar serviços que fazem parte das atividades diárias da população como escolas, supermercados ou creches e saber quais são os planos específicos desses lugares durante a crise.
- Produza histórias que relatem os planos de emergência para sua cidade e informe sua audiência sobre o que as autoridades têm em mente sobre a possível ameaça.
- Não suponha que cidades têm planos e áreas rurais não. Telespectadores vão se sentir mais confortáveis se conhecerem planos detalhados que estão sendo desenvolvidos. Você pode estimular organizações a tomarem essa iniciativa se ainda não o fizeram.
- Traga sempre histórias de última hora durante um surto. O aumento da preocupação com a segurança pessoal torna a transmissão midiática muito mais importante.
- A população necessita de informações precisas, assim como os cientistas vão investigar possíveis futuros surtos. Sempre vai haver um atraso para a verificação de um fato. Mesmo que seja difícil ser paciente tendo uma programação diária extensa, resista a tentação de dar notícias não confirmadas. Você vai escutar rumores em blogs ou em praticamente todo lugar, mas procure especialistas para os fatos.
Crise só no Impresso? Não! Na TV também.
As TV’s locais nos EUA registraram uma queda na oferta de empregos de 4.3% e uma redução nos salários de 4.4% em 2008, de acordo com um estudo apresentado na convenção da National Association of Broadcasters, em Las Vegas, a NAB show. 1.200 empregos foram perdidos. Mas – curiosamente – ao mesmo tempo, as estações de TV registraram um recorde no volume de notícias colocadas no ar. “As estações não estão de jeito nenhum desistindo das noticias locais”, concluíram os condutores da pesquisa. Repórteres e âncoras foram os mais afetados nos cortes de salários. Eis os transtornos na perda de rendimentos:
- Repórteres: -13.3%
- Âncoras: -11.5 %
- Apresentadores do tempo: -9.1%
- Apresentadores esportivos: -8.9%
3 coisas que afetam credibilidade no telejornalismo
3 elementos que podem prejudicar a credibilidade de uma reportagem, de acordo com pesquisa organizada pela RTNDA (The Radio and Television News Directors Foundation):
Fonte Anônimas: Não é recomendado o uso frequente de fontes confidenciais. Essa prática deve surgir só em casos excepcionais – em TV é inviável contar um fato sem a presença do personagem que o legitime – mesmo que este apareça com todos os recursos de edição que impeçam a identificação. Quando fontes anônimas aparecem em uma reportagem, telespectadores acreditam apenas em metade ou menos da metade do que a fonte diz.
Câmera Escondida: Para a pesquisa, as estações de TV utilizam a câmera escondida quando o alvo são pequenos infratores, não quando há a presença dos grandes violadores da lei. Se as estações de TV vão usar câmera escondida, a recomendação é investir mais tempo na investigação, para ter certeza de que vá se exibir parte de um crime organizado, não apenas um caso isolado. A orientação diz que esta técnica só deveria ser usada em histórias de grande relevância social.
Comercial: Quase todos os participantes da pesquisa disseram que seria lógico acreditar que empresas que compram espaço comercial na TV podem receber cobertura noticiosa favorável. A maior parte da audiência acredita que anunciantes, grandes investidores e políticos influenciam inadequadamente o conteúdo noticioso.
Dicas de especialistas para os “focas” do Telejornalismo
Para aqueles que planejam seguir carreira em telejornalismo, o caminho não é assim tão fácil: a concorrência é grande e as exigências são muitas. Algumas irrelevantes, outras imprescindíveis.
Três primeiros passos essenciais: estude muito, escreva bem e esteja disposto até para limpar chão (mesmo que no sentido figurado).
Eu, por exemplo, passei 1 ano estagiando sem ganhar salário, nem ajuda de custo (só de transporte). Talvez não seja o início mais agradável, mas certamente aprendi muita coisa nessa época: a ser persistente, a passar despercebida, a ser notada, a aprimorar meu texto para o veículo, a apurar notícias, a ser ágil, a conhecer o vocabulário do meio, o valor começar do zero e por aí vai. Foram muitas lições e uma excelente base. Encarando desafios, sentindo medo, errando, levantando a cabeça diante das bolas foras. Não existe melhor maneira de entrar nessa área do que praticar – e o estágio é o melhor caminho.
Hoje ainda continuo aprendiz – mas já vou ensinando também – é a mecânica. Sempre aparece uma forma mais criativa de contar uma história, sempre se pode melhorar a voz, escrever melhor, editar melhor. Sempre é possível vislumbrar um novo desafio profissional.
*****
Quer mais dicas de quem é especialista? Veja algumas sugestões úteis de profissionais veteranos do Broadcasting americano.
Al Tompkins (líder do grupo de Rádio e Telejornalismo do Poynter):
- Estudantes de telejornalismo que querem se sobressair na multidão devem ser ousados, “arqueologistas que aspiram informação”.
- Para se tornar um ótimo contador de história, o repórter deve trazer a tona informações onde ninguém mais está procurando, e então produzir a ‘embalagem’ com clareza e coesão. Para descobrir preciosidades jornalísticas bem escondidas, o jornalista precisa conversar com pessoas que ninguém mais está entrevistando.
- “Se uma multidão de jornalistas está indo a algum lugar, eu iria para qualquer lugar aonde eles não vão. Quebre o hábito de conversar só com seus amigos. Procure pessoas que não são como você e aprenda a escutar ao invés de falar. Além de ser um bom ouvinte, o aspirante deve ser um excelente escritor”.
- “Não faz mal ter boa aparência, mas em termo mais amplos, aparência não tem assim tanta importância. Tenho visto muitas pessoas de aparência mediana que são ótimos escritores e se dão muito bem nesse ramo”.
*****
Gayle Sierens (âncora e repórter veterana do Tampa’s WFLA-TV)
- “Texto afiado e habilidades para edição são as principais prioridades”.
- Dicas para repórteres de TV em desenvolvimento: “seja cara-de-pau e cabeça dura“.
- “Estudantes precisam trabalhar duro e serem pacientes. Ficar confortável em frente a uma câmera ou atrás de um microfone leva tempo e não acontece do dia para a noite”.
- “Para sair primeiro na competição, estudantes que desejam ser telejornalistas deveriam procurar posições de trabalho voluntário ou estágios em estações locais”.
- “Tenha força de vontade parta começar de baixo. Aproveite a chance e auto-delegue atividades. Faça tudo e qualquer coisa além do que pede suas obrigações. Qualquer fragmento de experiência irá apenas ajudar“.
*****
Peter King (âncora e repórter da Rádio CBS)
- “A melhor coisa que você pode fazer é visitar estações em sua cidade. Visite mais de uma. Pegue um estágio ou trabalho de meio período até varrendo chão. Você pode aprender bastante andando por ali. Seja curioso e faça muitas perguntas. Não apenas pergunte o que, mas pergunte por que”.
*****
Enquanto um ótimo rosto pode ajudar na TV e uma fantástica voz não atrapalha no rádio, broadcasters concordam que é o que está entre as orelhas o que conta.
Era da informação – sem leitura. É pertubador.
Leitura melancólica de fim de semana: a reportagem assinada por André Petry, (correspondente da Veja em Nova York), sobre a crise econômica vivenciada pelo The New York Times.
O texto resvala para uma temática mais profunda e abrangente do que a mídia americana e especificamente o jornal: a crise é mais ampla – as falácias que acompanham o “Jornalismo Cidadão”, a (muitas vezes falsa) “democratização da informação” liderada pela Internet, o esvaziamento da leitura, o conteúdo medíocre. É tudo muito perturbador e, de certa forma, melancólico.
“Bíblia do jornalismo americano, o New York Times está sufocado por dívidas, pela recessão e pela internet – e, se falir, poderá marcar o começo de uma era perturbadora na qual os jornais seriam irrelevantes”.
Alguns trechos de destaque (perturbadores):
O conteúdo da reportagem é expressão de duas marcas do Times, uma legendária, outra tenebrosa: a excelência de seu jornalismo, que acaba de lhe render cinco Pulitzer, o prêmio mais prestigiado da imprensa americana, e a sua dramática situação financeira. Tão dramática que, aqui e ali, já se ouve uma pergunta que, pouco tempo atrás, era inimaginável: o Times vai fechar ou ser vendido?
Pelo mundo afora, os jornais sentem a agulhada de uma conjunção de fatores especialmente desfavoráveis: a recessão mundial, que reduz os gastos com publicidade, e o avanço da internet, que suga anúncios, sobretudo os pequenos e rentáveis classificados, e também serve como fonte – em geral, gratuita – de informações. Na Inglaterra, para sobreviver, os jornais querem leis menos severas para fusão e aquisição de empresas. Na França, o governo duplicou a verba de publicidade e dá isenção tributária a investimentos dos jornais na internet. Mas em nenhum outro lugar a tormenta é tão assustadora quanto nos Estados Unidos. A recessão atropelou os dois maiores anunciantes – o mercado imobiliário e a indústria automobilística –, e a evolução da tecnologia, com seu impacto sísmico na disseminação da informação, se dá numa velocidade alucinante no país. (Agora mesmo, o Twitter, misto de microblog com site de relacionamento criado em São Francisco, passou a ser usado por celebridades, e explodiu: captura 8 300 novos adeptos por hora.)
O binômio recessão-internet está produzindo uma devastação.
(…)
O fechamento de um jornal é o fim de um negócio como outro qualquer. Mas, quando o jornal é o símbolo e um dos últimos redutos do bom jornalismo, não importa quanto isso custe, como é o caso do Times, morrem mais coisas com ele. Morrem uma cultura e uma visão generosa do mundo. Morre um estilo de vida romântico, aventureiro, despojado e corajoso que, como em nenhum outro ramo de negócios, une funcionários, consumidores e acionistas em um objetivo comum e maior do que os interesses particulares de cada um deles.
Desde que os romanos passaram a pregar em locais públicos sua Acta Diurna, o manuscrito no qual informavam sobre disputas de gladiadores, nascimentos ou execuções, os jornais começaram a entrar na veia das sociedades civilizadas. Mas, para chegar ao auge, a humanidade precisou fazer uma descoberta até hoje insubstituível (o papel), duas invenções geniais (a escrita e a impressão) e uma vasta mudança social (a alfabetização). Por isso, um jornal, ainda que seja um negócio, não é como vender colírio ou fabricar escadas rolantes.
(…)
Nos EUA, a agonia dos jornais tem impacto especial pelo papel histórico que tiveram na construção da democracia e na introdução de uma relíquia constitucional – a garantia da liberdade de expressão, que ocupa lugar vital nos valores americanos. O dramático é que muitos leitores não parecem incomodados com a ameaça sobre os jornais. Uma pesquisa mostra que 42% dos americanos sentiriam “pouco” ou “nada” se seu jornal fechasse.
(…)
Especula-se que o Times poderia operar só na internet de segunda a sábado, preservando em papel a edição dominical – nela, anúncio avulso em cor e página inteira custa 270 000 dólares. Mas ninguém descobriu como viabilizar-se financeiramente na internet, arrecadando o bastante para bancar um jornalismo de alto padrão. O site do próprio Times é um bom exemplo. É uma pérola do jornalismo on-line. Com 20 milhões de visitantes por mês, oferece perfis e gráficos interativos, tem um arquivo com matérias do século XIX, áudios e vídeos de qualidade irretocável e oferece links até para a concorrência. Mas não se sustenta. Para mandar repórteres ao Darfur, à Amazônia ou ao Tibete, o Times gasta 200 milhões de dólares por ano. Sai caro, mas talvez isso esteja ficando desimportante aos olhos de um público aparentemente satisfeito com a qualidade – deplorável – do que se produz na internet. A febre atual nos EUA é o “jornalismo cidadão”, já com mais de 450 blogs. O “jornalismo cidadão” é feito por qualquer um que tenha conexão com a internet e seja alfabetizado (ou quase). É até divertido. Mas será pior um mundo em que iniciativas amadoras substituam o jornalismo profissional na busca, seleção e difusão de informações de qualidade.
(…)
Quem acha que a internet é o nirvana da democratização da informação precisa lembrar que o Google tem seu quase monopólio – e divulga notícias de “25 000 fontes” sem pagar um tostão por elas. E quem acha que a internet, por sua natureza virtual, dissemina mais informação e eleva a cultura das massas precisa ir devagar. O site do Times, com seus 20 milhões de usuários, é o maior site de jornal do mundo. Mas, em média, seus visitantes ficam no site 35 minutos – por mês. Ou 1,10 minuto por dia. Não dá tempo de ler nem um gibi. É como se os internautas passassem numa banca, dessem uma olhada nos títulos expostos e fossem embora. Sem ler nada. É perturbador.
Cinco mitos sobre a reportagem curta e objetiva
Leitores/Telespectadores sinalizam que buscam um texto conciso e claro.
Editores querem que esta preferência seja atendida. E nós redatores – teimamos – em continuar no mesmo caminho. Teimosia talvez não seja bem a palavra, escrever bem em poucas palavras não é necessariamente uma tarefa fácil.
Roy Clark – especialista no debate longo X curto sinaliza a recuperação: “Nós percebemos que a pena que produziu “Hamlet” também borrou um soneto ou dois”.
Estudando “a arte do texto enxuto”, o autor encontrou cinco argumentos que hoje considera mitos.
“Até nós dissiparmos esses mitos, não apenas nossas longas histórias vão ser muito longas, mas também as curtas vão ser longas também”.
Mito #1. Repórteres são culpados por todas as reportagens longas.
Errado. A culpa está também nos editores. Por quê? Muitos editores procuram “buracos” nas reportagens ao editar. Acompanham as reportagens a partir de coisas que estão faltando. “Nós sabemos o que o prefeito pensa sobre isto?”; “O que aconteceu com as garotas no acidente?”; “Você pegou o nome do cachorro?” Em geral, tais questões ajudam o repórter a antecipar as necessidades do telespectador. Mas muitas a meta é escrever uma reportagem que antecipa as perguntas dos editores. O repórter acaba colocando informações que o telespectador não precisa – apenas para satisfazer a curiosidade do editor. Querido editor: essa mecânica deixa o texto mais longo e cansativo.
Mito #2. História concisa leva menos tempo para ser produzida.
Errado. Testemunho disto é o filósofo francês Pascal (autor da célebre frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”). Ele pediu desculpa a um leitor para um leitor por ter escrito uma longa carta, argumentando que não teve tempo de escrever uma curta.
Produzir uma reportagem completa e sucinta leva tão ou muito mais tempo do que fazer uma longa. Por quê? Porque o repórter precisa ter autoridade para deixar as coisas de fora. Dissipar-se deste mito é crucial para fazer um texto sucinto pela necessidade do leitor e não porque não tem boas sonoras ou falta de informações.
Mito #3. Reportagem pequena toma menos tempo.
Nem sempre essa questão é simples aritmética: menos palavras = menos espaço. Editores espertos – de texto e de imagem – percebem que ótimas histórias criam espaços para outros elementos da história. Uma reportagem pode ser acompanhada de múltiplas sonoras, tabelas informativas, imagens soltas com “sobe som”, os recursos gráficos são cada vez mais acessíveis. Reportagem concisa não significa que o editor não possa fazer melhor uso do “espaço em branco”. Esses elementos podem aumentar o tempo do VT, mas certamente tem mais impacto do que um texto inflado e “seco”.
Mito #4. Curto é inimigo do longo.
O problema não é a proliferação das reportagens longas, profundas e investigativas. Essas aparecem em menor quantidade e normalmente são justificáveis. O inimigo de ambos – pequeno e grande – é o termo médio. Muitas dessas reportagens poderiam ser cortadas um 1 terço. Editores são os culpados novamente. Protestam diante de VT’s longos, mas não arredondam as histórias, deixando-as mais concisas e precisas. Menores histórias médias poderiam criar espaço para uma combinação mais rica entre pequena e grande reportagem.
Mito #5. Pequeno é inimigo de bom.
Reportagem curta não tem que resultar em diminuição de valor. Em seu melhor, a pequena reportagem brilha em torno de focos específicos. Começa com um elemento esperto e convincente e se fixa na memória do telespectador.
Editores que ajudam a desfazer estes cinco mitos podem conquistar a confiança de repórteres céticos, quando juntos melhoram o produto final pensando na audiência.
-
Arquivos
- fevereiro 2011 (1)
- dezembro 2010 (1)
- julho 2010 (4)
- junho 2010 (2)
- maio 2010 (3)
- abril 2010 (12)
- março 2010 (14)
- janeiro 2010 (3)
- novembro 2009 (7)
- outubro 2009 (36)
- setembro 2009 (23)
- agosto 2009 (29)
-
Categorias
- Ética
- Bibliografia
- Blogs
- Carreira
- Cinema
- Cobertura Especial
- Comunicação
- Diário de uma Repórter
- Figurino
- Internacional
- Internet
- Jornalismo
- Jornalismo Esportivo
- Jornalismo Gráfico
- Jornalismo Internacional
- Jornalismo Local
- Jornalismo Paraibano
- Leitura
- Mídia Americana
- Mídia Eletrônica
- Multimídia
- On Air
- Pesquisa
- Prêmio
- Produção de TV
- Redação
- Telejornalismo
- Televisão
- Texto
- Uncategorized
- Vídeo
- Web
-
RSS
RSS Entradas
RSS Comentários







