Em clima de Halloween: super-heróis da vida real
Às vésperas do Halloween – uma das datas mais badaladas nos EUA – só me lembro de uma reportagem que o New York Times publicou em 2007 – e que nunca saiu da minha cabeça pelo tema original e inusitado.
Vestido para o Halloween? Não, para limpar a Times Square. Este é o título de uma matéria sobre um grupo de ativistas americanos que se conheceram através do MySpace (site de relacionamentos), os “Superheroes Anonymous” (super-heróis anônimos).
Eles se auto-definem como “super-heróis da vida real” que circulam pelas ruas (principalmente de New York) praticando boas ações.
Os integrantes, literalmente, se vestem como heróis (e parecem estar prontos para o Halloween, embora não chamem o que vestem de fantasia, mas de uniforme): Vestem capas, misturam roupas extravagantes, além de usarem máscara para preservar suas identidades (também não revelam os nomes reais, eles têm apelidos como Street Hero, Red Justice, Cleaner, Direction Man).
O que fazem? cada um tem sua forma de ajudar o próximo.
Uma das “heroínas” é ex-prostituta e anda pelas ruas ajudando como pode outras mulheres que ainda estão na prostituição. Um deles (o Direction Man) guarda mapas no seu colete laranja para ajudar turistas e moradores perdidos. A “Cleanser” cata papéis pelas ruas, vestida à caráter. O “Red Justice” canta em metrôs para encorajar jovens a cederem seus assentos para os mais necessitados.
O líder do grupo é cineasta amador, estuda em Columbia e está produzindo um documentário com os “super-heróis”. Ele disse que luta contra o pior dos crimes: a apatia.
Já outro deles, o The Super, disse que resolveu mudar de atitude quando quase perdeu um amigo que caiu de um andaime: “Eu falei para mim mesmo: se eu tiver que esperar pelo prefeito da cidade para consertar tudo o que há de errado e perigoso na cidade, isso nunca vai acabar”, diz ele.
O The Super falou que é muito zombado, além de já ter sido alvo de ovos, pedras e até mesmo de um pedaço de carne congelada.E termina a matéria dizendo: “Não tenho muitos amigos. Muitos super-heróis estão tropeçando pelo caminho. E parte disto faz você definitivamente se sentir isolado, porque ninguém te compreende.”
Às vésperas de 31 de outubro, a reportagem traz jogo de sentidos interessante: um grupo de ativistas inusitado, em plena época de fantasia, na cidade mais americana do país do Halloween.
Um misto de matéria divertida (porque causa estranheza), mas com uma temática no fim das contas bem séria: talvez seja esta uma das propostas de um jornalismo com “humor”, que trata de assuntos “sérios” de forma mais leve e consequentemente mais atraente.
Um grupo de pessoas que, absolutamente, foge desse estado de mansidão (ideológica) em que a maioria de nós vive. Mas sabe o que mais causa estranheza? Não é ver pessoas de repente vestidas de super-heróis ajudando outras em plena cidade que respira individualidade. O que é mais estranho somos nós estranharmos este tipo de atitude. E muito mais bizarro é ter pessoas que zombam e agridem física e verbalmente seres humanos que se libertaram das convenções de uma sociedade que não se respeita e, com pequenas atitudes, não só estão reclamando, como estão pondo a mão na massa.
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